7 Perguntas que toda mãe sonha em fazer para uma Consultora de Sono – Entrevista com Simone Piubello

O sono do bebê é um dos maiores desafios da maternidade, e cada fase traz novas dúvidas e obstáculos. Para esclarecer as questões mais comuns, conversamos com Simone Piubello, enfermeira e consultora do sono, que nos ajudou a entender como construir uma rotina de descanso saudável desde os primeiros meses até a infância.


Pauline (fundadora da Joli Môme):

“Quando me tornei mãe, já tinha criado a Joli Môme e idealizava trabalhar enquanto minha filha dormia (risos!). No começo, os recém-nascidos dormem muito—cerca de 17 horas por dia—mas acordam o tempo todo. Além disso, muitos adoram dormir no colo ou mamando! Por que isso acontece tanto de dia quanto de noite? Como os pais podem lidar com isso?”

Simone Piubello:

A melhor forma de lidar com o sono do recém-nascido é ajustando as expectativas. O bebê nasce com apenas 25% do cérebro desenvolvido, sem conexões neurais formadas e sem um relógio biológico. Ou seja, ele não sabe diferenciar dia e noite e tem um sono totalmente polifásico, sem padrão fixo. Além disso, há os desafios da exterogestação—o bebê sai de um ambiente quentinho, escuro e seguro para um mundo cheio de estímulos, então o colo materno é essencial para dar segurança.

Um grande aliado nesse período é o sling, que oferece aconchego ao bebê e mobilidade para os pais. Além disso, a amamentação desempenha um papel crucial, não só na alimentação, mas também no sono. Nos primeiros três meses, o bebê ainda não produz melatonina, e essa substância vem do leite materno, ajudando-o a relaxar e dormir melhor. Ou seja, além de mamar para se alimentar, ele também suga para atender outras necessidades fisiológicas. Portanto, entender essa fase e respeitar o tempo do bebê faz toda a diferença!


Pauline:

“Como criar uma rotina que ajude o bebê a dormir melhor? A rotina precisa ser a mesma para a noite e as sonecas diurnas?”

Simone Piubello:

Desde o primeiro dia de vida, já podemos ajudar o bebê a diferenciar o dia da noite e iniciar uma rotina simples de sono. Uma dica fundamental é expor o bebê à luz natural pela manhã, sempre que ele acordar. Isso contribui para a regulação do relógio biológico, que ainda está em formação.

Nos primeiros três meses, as sonecas não precisam ser no escuro, pois, nesse período, o bebê ainda não produz melatonina de forma independente, então a luminosidade não faz diferença. Outra estratégia importante é sair para passear, mostrar o movimento do dia e ajudá-lo a perceber a transição natural do tempo.

Quando anoitecer, comece a diminuir os estímulos: reduza as luzes da casa, abaixe os barulhos e crie um ambiente mais calmo. Desde o primeiro dia, já podemos estabelecer rituais de sono—como um banho morno, troca de roupa e um momento tranquilo antes de dormir.

O uso de um saco de dormir pode ser um excelente aliado nessa rotina. Além de proporcionar conforto e segurança ao bebê, ele funciona como um “gatilho de sono”—ou seja, um sinal repetitivo que indica que está na hora de dormir. Assim como adultos associam um pijama confortável ao descanso, os bebês também criam essa conexão com o saco de dormir. Se ele for usado tanto nas sonecas quanto no sono noturno, ajuda o bebê a entender que chegou o momento de relaxar.

Os bebês não têm noção de horário, mas entendem a rotina através de atividades repetitivas e previsíveis. Criar esse ambiente traz mais segurança e conforto para o bebê (e para os pais também!).

Bebê num berço seguro com saco de dormir bebê da Joli Môme


Pauline:

“Não foi o meu caso, mas muitas mães relatam que seus bebês dormiam bem e, depois, começaram a acordar várias vezes à noite. O que pode estar acontecendo? Como conquistar novamente um sono mais contínuo após uma regressão?”

Simone Piubello:

Muitas mães culpam os saltos de desenvolvimento pelas dificuldades de sono. Eu não acredito exatamente nisso, mas sim que, durante a aprendizagem de uma nova habilidade, há uma maior ativação cerebral, e isso pode influenciar o sono do bebê.

O que vejo acontecer com frequência é que as necessidades de sono do bebê mudam constantemente—nos primeiros seis meses, isso ocorre mensalmente e, depois, a cada três meses, até os 18 meses. Muitas vezes, os pais não ajustam a rotina do bebê conforme essa evolução, deixando as sonecas desajustadas. Como consequência, as noites também ficam bagunçadas.

O sono noturno é um reflexo do dia. Se o dia foi confuso, com horários irregulares e estímulos excessivos, é provável que a noite seja difícil também. É por isso que acredito tanto na neurociência do sono infantil—quando entendemos a real necessidade do bebê, considerando idade, cronotipo e desenvolvimento, conseguimos ajustar a rotina de forma mais equilibrada e respeitosa. Isso faz toda a diferença para um sono mais tranquilo!


Pauline:

“Você mencionou a importância das boas sonecas para garantir um sono noturno de qualidade. E quando o bebê resiste às sonecas ou dorme por períodos muito curtos durante o dia? Como podemos ajudá-lo a relaxar e, assim, prolongar seus períodos de descanso?”

Simone Piubello:

Previsibilidade! O que acontece muitas vezes é que o bebê está brincando, passa do horário de dormir, começa a chorar e ficar irritado, e só então os pais percebem que é hora de colocá-lo para dormir. Mas um corpo estressado libera cortisol, um hormônio que dificulta o relaxamento e o sono.

Até os 4 meses, seguimos as janelas de sono, mas depois disso, o bebê começa a ter um relógio biológico mais definido, com horários naturais de maior propensão ao sono. O ideal é que, em vez de esperar o bebê demonstrar sinais de cansaço extremo, os pais comecem a preparar o ambiente para o sono um pouco antes.

Aqui está um exemplo de rotina simples e eficaz:
✔ Tirar o bebê da brincadeira e reduzir os estímulos
✔ Levar para olhar a janela ou dançar uma musiquinha calma
✔ Ir para o quarto, trocar a fralda e colocar uma roupinha própria para dormir (o saquinho de dormir é uma ótima opção, pois cria um gatilho para o sono – aqui, eu sempre usei os saquinhos da Joli Môme!)
✔ Contar uma historinha curta e colocá-lo para dormir

Os bebês precisam de pistas previsíveis para entender o que vai acontecer. Quando isso acontece, eles resistem menos e dormem mais relaxados.

Mãe preparando a filha para tirar soneca com seu saco de dormir com pezinho


Pauline:

“A pergunta do milhão… É possível ensinar um bebê a adormecer sozinho no berço? Se sim, a partir de qual idade isso é viável e qual a importância de aceitar algum choro nesse processo?”

Simone Piubello:

Sim, mas com paciência e segurança!

Aos 4 meses, o cérebro do bebê começa a formar mais conexões sinápticas, e, a partir daí, podemos, gradualmente, ajudá-lo a dormir com menos intervenção. Mas é fundamental entender que isso é um processo e não acontece do dia para a noite. Não existe milagre de ensinar um bebê a dormir 12 horas seguidas em 7 dias—essa promessa é só marketing para vender cursos. Infelizmente, muitas mães tentam, não conseguem e acabam desistindo, achando que o problema está nelas.

E ensinar o bebê a dormir não deve ser feito a qualquer custo. Não acredito em métodos que deixam o bebê chorando sozinho no quarto até adormecer. A base para a autonomia do sono é a segurança emocional—o bebê precisa sentir que os pais estão presentes e o apoiam nesse aprendizado.

Muitos pais me perguntam: “Meu filho pode chorar?” Sim, pode! Mas precisamos entender o motivo desse choro. Existem algumas variáveis:

1️⃣ Choro como descarga emocional – O bebê pode chorar porque precisa liberar o estresse acumulado do dia, principalmente se recebeu muitos estímulos ou está muito cansado. Nesse caso, uma rotina bem ajustada e rituais de sono estruturados ajudam bastante.

2️⃣ Choro de frustração pela mudança de hábito – Quando começamos a incentivar a autonomia do sono, estamos modificando um padrão ao qual o bebê já está acostumado. Como toda mudança, isso pode gerar frustração, mas não significa abandono. Com acolhimento e paciência, ele aprende a adormecer com mais segurança e confiança.

Portanto, o caminho para um sono mais tranquilo não é um método rígido, mas sim um processo respeitoso, onde o bebê desenvolve sua autonomia sem traumas!


Pauline:

“Eu construí a crença de que, apesar de uma rotina bem feita e sonecas bem estabelecidas, há crianças que ainda não têm maturidade emocional ou capacidade para dormir sozinhas e precisam da presença de um adulto. Você concorda com isso? Você acha que todas as crianças são iguais quando se trata de alcançar o sono autônomo? Existe uma idade máxima para essa conquista?”

Simone Piubello:

Se cada ser humano é único, por que com os bebês seria diferente? Eles também são indivíduos com histórias próprias, que começam muito antes do nascimento. Hoje sabemos que o ambiente gestacional influencia diretamente o desenvolvimento do bebê. Estudos mostram que bebês cujas mães passaram por muito estresse durante a gestação podem nascer com um cérebro mais hipervigilante, ou seja, mais alerta e sensível. O mesmo pode ocorrer com bebês que passaram por UTI neonatal ou procedimentos invasivos logo ao nascer—eles tendem a ter mais dificuldade para relaxar e dormir com segurança.

Por isso, não existe um único método que funcione para todos os bebês. Alguns precisarão mais da presença dos pais na hora de dormir até se sentirem seguros. E tudo bem!

Minha abordagem é gradual justamente para entender até onde podemos ir com cada bebê e cada família. Alguns bebês precisarão do contato e da presença dos pais no início, mas isso não significa que não possam dormir a noite inteira depois. Porque a base do sono é a segurança!

Ensinar autonomia no sono não pode ser algo rígido ou forçado. O processo precisa respeitar o tempo e as necessidades do bebê, garantindo que ele se sinta acolhido. Quando ele percebe que está tudo bem, o sono acontece de forma mais tranquila e natural.

Bebê acordando da soneca com saco de dormir


Pauline:

“Bebês não são robôs, e, apesar de muitas dicas que as mães aplicam corretamente, fatores como o estresse dos pais, o ambiente do quarto, o barulho da TV ou da rua podem influenciar o sono. As mães devem aceitar que, às vezes, elas não são responsáveis por tudo e que o sono dos bebês nem sempre será perfeito, como em um ‘comercial de margarina’?”

Simone Piubello:

Aqui vou contar a história da minha própria filha e o motivo pelo qual fui estudar a neurociência do sono infantil. Costumo dizer que o sono do bebê vai muito além de rotina e autonomia, e minha experiência pessoal ilustra bem isso.

Desde os 4 meses, comecei a trabalhar o sono da minha filha. Fiz ajustes na rotina, no ambiente, criei rituais e ensinei autonomia—tudo conforme o que aprendemos sobre o sono infantil. Mas, mesmo assim, ela ainda tinha despertares. Foi aí que minha jornada na neurociência começou.

Agora, voltando à minha gestação. Passei três anos tentando engravidar até ser diagnosticada com trombofilia. Quando finalmente consegui, o medo de perder a gestação era enorme, pois o risco era real em qualquer fase da gravidez. Isso me deixou extremamente ansiosa, a ponto de precisar de medicação prescrita pela psiquiatra que me acompanhava.

O que eu não sabia na época era que minha filha recebeu altas doses de cortisol durante a gestação, o que fez com que seu cérebro se tornasse mais alerta. Quando comecei a estudar neurociência do sono infantil, tudo fez sentido!

Entendi que o cérebro dela funcionava de um jeito diferente e que seus despertares não eram causados por uma rotina mal ajustada ou falta de autonomia, mas sim por características próprias de como seu cérebro foi moldado durante a gestação. E o cérebro de cada bebê é único! E está tudo bem!

É por isso que o sono infantil não pode ser tratado como uma fórmula única. Muitas mães se frustram porque acreditam que basta seguir uma rotina perfeita para tudo funcionar. Mas nem tudo está sob nosso controle!

Seu filho não precisa de uma rotina perfeita para dormir bem, mas sim de uma abordagem que leve em consideração suas necessidades individuais e a segurança emocional necessária para que ele relaxe e durma com mais tranquilidade.


As perguntas e respostas desta entrevista com Simone Piubello oferecem um olhar mais próximo sobre o sono do bebê e os desafios que os pais enfrentam ao longo do desenvolvimento infantil. Compreender que não existe uma fórmula mágica e que cada bebê tem seu próprio ritmo é essencial para promover um sono mais tranquilo e saudável para toda a família. A chave é paciência, consistência e respeito às necessidades do bebê.

Se você tem mais perguntas ou gostaria de saber mais sobre como melhorar o sono do seu pequeno, a Simone está disponível para oferecer orientações personalizadas.

Um abraço,

Pauline

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